Um dia, após uma tempestade, um gatinho apareceu em nosso jardim e foi adotado pelo nosso prédio. Muitos anos depois, logo após eu ter comprado a minha primeira câmera analógica da vida adulta, desci no jardim e me deparei com a visão de um pedaço de pássaro. Uma asa deitada sozinha ali no chão. Meu primeiro instinto foi fotografar. Arrumei as penas soltas com minha mão nua, embora provavelmente não deveria ter feito isso, eu me sentia como se estivesse em transe.
Foi meu primeiro rolo com essa câmera que ainda não tinha sido testada, eu nem sabia se ia sair alguma foto. Mas saiu, e eu amo profundamente este díptico de fotos desde então. Fico triste de olhar para ele, mas ainda assim, a asa é tão linda. Uma obra da natureza, vista em isolamento.
Muitas pessoas são contra manter gatos fora de casa (devido a diversos riscos tanto para o gato, quanto para a fauna da região), mas o caso desse gato é muito específico. Ele vive estritamente dentro do jardim, em um prédio no meio da cidade. Ele não é meu animal de estimação, minha responsabilidade exclusiva, apesar do enorme amor que tenho por ele e os muitos anos de memórias queridas. Então, fico com essa questão. Como me sentir sobre o que aconteceu.
Ninguém poderia culpar um gato por simplesmente seguir seus instintos, por tentar comer. Nada de particularmente errado aconteceu ali, ou pelo menos nada que tenha sido minha culpa. Mas eu me sentia tão pesada olhando para aquele pedacinho de pássaro. Uma morte. Uma coisa sem vida. Uma coisa linda. Essas fotos me trazem sentimentos intensos e conflitantes, sem nenhuma resposta ou resolução apropriada. Não sei como dar nome a isso. Mas eu amo essa sensação, essas imagens, porque elas me deixam sem fôlego e me fazem refletir.
Feito em filme fotográfico expirado preto e branco Agfa APX 100.